REPORTAGEM ESPECIAL: AS ENGRENAGENS DO CASO MARIELLE E A QUEDA DO DELEGADO HÉLIO KHRISTIAN

Da Prisão por Furto à Obstrução do Crime da Mariele Franco: O Declínio de um Delegado da PF

REPORTAGEM ESPECIAL: AS ENGRENAGENS DO CASO MARIELLE E A QUEDA DO DELEGADO HÉLIO KHRISTIAN
REPORTAGEM ESPECIAL: AS ENGRENAGENS DO CASO MARIELLE E A QUEDA DO DELEGADO HÉLIO KHRISTIAN (Foto: Reprodução)

Nesta quinta-feira, 20 de agosto de 2026, um episódio melancólico e aparentemente isolado na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, reconectou os holofotes da segurança pública a um dos personagens mais controversos dos bastidores policiais fluminenses.


O delegado aposentado da Polícia Federal, Hélio Khristian Cunha de Almeida, foi preso em flagrante por policiais militares após tentar furtar cerca de R$ 500 em mercadorias em um supermercado na Avenida das Américas. Khristian tentou passar pelo caixa escondendo produtos em sacolas. Ele foi conduzido à 16ª DP (Barra da Tijuca).


Para quem acompanha o xadrez do crime organizado no Rio de Janeiro, o nome de "HK" — como é conhecido nos corredores da corporação — evoca memórias muito mais densas do que um delito de varejo. Hélio Khristian, que comandou a Delegacia da PF em Macaé nos anos 2000, esteve no epicentro de uma das maiores manobras de desvio de foco e obstrução de justiça da história recente: a farsa montada para blindar os mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes.
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O Triunvirato de Delegados e a Fábrica de Pistas Falsas


Nos meses que se seguiram ao atentado de 14 de março de 2018, as investigações da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) foram inundadas por uma cortina de fumaça meticulosamente planejada. No centro dessa estratégia, emergiu um trio de delegados da Polícia Federal: Hélio Khristian, Felício Laterça e Lorenzo Pompilio.


[Rede de Articulação e Obstrução]


Mandantes (Irmãos Brazão) ──> Gilberto Ribeiro (Operador/PF)
                                    │
                                    ▼
PM Ferreirinha (Testemunha Falsa) ──> Hélio Khristian (PF)
                                    │
                                    ├──> Felício Laterça (PF)
                                    └──> Lorenzo Pompilio (PF)
                                    │
                                    ▼
                     Direcionamento de Pista Falsa para:

                     - Marcello Siciliano (Rival Político)

                     - Orlando Curicica (Miliciano Rival)


Em maio de 2018, o policial militar Rodrigo Jorge Ferreira, o "Ferreirinha", foi levado por Hélio Khristian para dentro da Superintendência da PF no Rio. Para dar peso institucional ao depoimento, Khristian convocou Felício Laterça (então cotado para assumir a chefia da PF no estado) e Lorenzo Pompilio para avalizarem a oitiva, operando à revelia e sem o conhecimento formal de seus superiores imediatos.


Ferreirinha apresentou uma narrativa convincente: acusou o vereador Marcello Siciliano e o miliciano Orlando Curicica de tramarem a morte de Marielle. Mais tarde, os relatórios de inteligência da própria Polícia Federal desmascararam a farsa. O depoimento serviu cirurgicamente para duas frentes:


   1. Afastar as suspeitas que pairavam sobre os verdadeiros mandantes.

   2. Incriminar inimigos políticos diretos da família Brazão na disputa territorial da Zona Oeste.


Embora Laterça e Pompilio tenham sustentado publicamente que agiram no estrito cumprimento do dever legal ao apenas encaminhar uma testemunha voluntária, os relatórios da PF detalharam como os mandantes utilizaram a rede informal de contatos de agentes federais como "porta de entrada" para legitimar a farsa no inquérito estadual.
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A Conexão Interior: O Treinamento dos Executores em Campos dos Goytacazes


Se a obstrução política e jurídica se concentrava nos gabinetes e hotéis da capital fluminense, a preparação operacional para a execução de Marielle Franco fincou raízes profundas no Norte Fluminense.

Os detalhes da preparação tática vieram à tona por meio das delações premiadas dos executores, o ex-sargento da PM Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio de Queiroz. Os depoimentos indicaram que o plano exigia um nível de precisão que não permitia erros no perímetro urbano do Rio de Janeiro.

Para isso, os matadores se deslocaram até a região de Campos dos Goytacazes, utilizando um sítio discreto na área rural do município como base tática. No local, longe dos radares da inteligência da capital, a equipe de executores realizou:

* Testes de balística e calibragem de armamento: Utilizando a submetralhadora HK MP5 de 9mm equipada com silenciador, posteriormente usada na emboscada da Rua Joaquim Palhares.

* Simulações de perseguição e tiro embarcado: Treinando a mecânica de emparelhamento de veículos em velocidade, simulando as funções exatas divididas no dia do crime — Élcio na condução do Cobalt prata e Lessa posicionado no banco traseiro para efetuar as rajadas concentradas.


[Cronologia Operacional e Logística]


Agosto de 2017: Início do monitoramento dos passos de Marielle Franco.
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Período de Preparação: Deslocamento para o sítio em Campos dos Goytacazes.
     │ - Treinamento com submetralhadora HK MP5.
     │ - Alinhamento tático de tiro embarcado.
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14 de Março de 2018: Execução na Praça Mauá / Estácio.
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Maio de 2018: Ativação da farsa de Ferreirinha via Hélio Khristian e Felício Laterça.

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O Encontro do Passado com o Presente


O episódio do furto de R$ 500 no mercado neste dia 20/08/2026 encerra o arco de um agente público cuja biografia se misturou às páginas policiais mais sombrias do estado.

Das investigações fazendárias em Macaé nos anos 2000 às denúncias da Procuradoria-Geral da República por integrar uma "central de mutretas", o destino de Hélio Khristian — agora detido por um crime comum na Barra da Tijuca — sintetiza a degradação das estruturas de fiscalização que, em vez de servirem à lei, por anos atuaram na engrenagem que atrasou a elucidação do crime do século.


DESDOBRAMENTO: AS OUTRAS FRENTES DE INVESTIGAÇÃO CONTRA O "TRIO DA OBSTRUÇÃO DO CASO MARIELLE FRANCO"


As conexões espúrias do grupo de delegados da Polícia Federal que chancelou a testemunha falsa no Caso Marielle Franco não se limitam à blindagem de milicianos e políticos da Zona Oeste. Investigações recentes e condenações judiciais revelam que os membros desse "trio" também estavam profundamente inseridos em outras engrenagens de corrupção sistêmica no Rio de Janeiro, envolvendo a máfia dos cigarros contrabandeados e a venda de informações sigilosas dentro da própria corporação. 

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 Felício Laterça e a Planilha da Máfia dos Cigarros


O nome do delegado e ex-deputado federal [Felício Laterça] voltou ao centro das atenções com o avanço da [Operação Unha e Carne]


* A Lista de Adilsinho: Durante buscas na residência de [Adilson Oliveira Coutinho Filho, o "Adilsinho"]— apontado como o chefe da principal máfia de cigarros ilegais e jogo do bicho no Rio —, a PF apreendeu uma planilha detalhada de contabilidade criminosa. 


* A Menção ao Delegado: O nome de [Felício Laterça] aparece explicitamente listado [como destinatário em registros associados a movimentações financeiras]( e propinas da organização, que movimentava milhões de reais subornando agentes públicos para garantir a livre circulação de cargas contrabandeadas e calar concorrentes. 


* A Defesa do Delegado: Ao ser confrontado pela imprensa sobre os documentos da PF, Laterça negou veementemente qualquer recebimento de vantagens ilícitas. Ele alegou que, ao longo de sua trajetória, foi justamente um dos responsáveis por combater o contrabando de cigarros e sugeriu que seu nome pode ter sido colocado de forma seletiva na lista por vingança de opositores políticos ou por terceiros agindo à sua revelia. 


A Operação Unha e Carne também prendeu outras lideranças do esquema, como o pastor Márcio Poncio, evidenciando como a máfia dos cigarros contava com uma rede ramificada de proteção. 

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Lorenzo Pompilio: Condenado a 10 Anos de Prisão por Corrupção


Se Hélio Khristian terminou o dia em uma delegacia de bairro por furto e Laterça tenta se explicar sobre as planilhas da contravenção, o terceiro membro do grupo, o delegado Lorenzo Martins Pompílio da Hora, enfrenta o pior cenário jurídico do trio. 


* A Sentença Recente: A Justiça Federal do Rio de Janeiro [condenou Lorenzo Pompílio a 10 anos e 6 meses de prisão em regime fechado] pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A sentença também determinou a perda imediata de seu cargo público na Polícia Federal.


* Venda de Investigações: A condenação foi baseada em um esquema criminoso no qual Pompílio usava seu cargo de delegado para vender informações sigilosas e cobrar subornos para enterrar inquéritos federais. 


* O Carro de Propina:  A investigação comprovou que ele recebeu como propina um veículo Ford Fusion Titanium (avaliado na época em R$ 70 mil), registrado em nome de laranjas, oferecido por um advogado investigado que posteriormente se tornou delator do esquema.


Segundo o Ministério Público Federal, o grupo criminoso operado por Pompílio chegou a movimentar cerca de R$ 10 milhões em vantagens indevidas entre os anos de 2013 e 2017. Atualmente, ele recorre da decisão em liberdade.
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O Quadro de Degradação do Grupo


A evolução das investigações desenha uma linha nítida sobre o perfil dos operadores que controlavam os bastidores da Polícia Federal fluminense no momento mais crítico do Caso Marielle Franco:


| Delegado | Papel no Caso Marielle (2018) | Situação Criminal Atual |
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Helio Kristian | Introduziu a testemunha falsa ("Ferreirinha") para desviar a investigação para rivais dos Brazão. | Preso em flagrante por tentativa de furto em supermercado na Barra da Tijuca. |


| Felício Laterça[| Usou seu prestígio institucional para chancelar e encaminhar o depoimento falso à Polícia Civil. | Investigado após seu nome figurar em planilhas de pagamento da Máfia dos Cigarros de "Adilsinho". |


| Lorenzo Pompilio | Validou formalmente a reunião oculta que colheu os dados da farsa contra Curicica e Siciliano. | Condenado a 10 anos e 6 meses de prisão em regime fechado por venda de informações e corrupção. |

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